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Fifty Shades of Grey(2015)

Há 2 anos | Drama, Romance, Thriller | 2h5min

de Sam Taylor-Johnson, com Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eloise Mumford, Victor Rasuk e Luke Grimes


Certamente a mais antecipada e intensa adaptação literária dos últimos anos, 50 Shades of Grey é um filme baseado no bestseller semi-erótico de EL James, que decidiu escrever uma fan-fiction do Twilight (2008), no seu BlackBerry. Sim, isto é uma fantasia de uma mulher de 50 anos, escrita num telemóvel e com inspirações num filme sobre vampiros que brilham ao sol.

Através de um enganador e falacioso marketing, somos introduzidos à mais desagradável softcore representação de sado-masoquismo na história do cinema.

Anastasia Steele (Dakota Johnson), a tímida e desajeitada estudante de literatura, vai entrevistar o bilionário Christian Grey (Jamie Dornan) para um trabalho da sua colega de quarto que ficou constipada durante cinco minutos, simplesmente para propósitos do argumento. A entrevista de Anastasia não nos dá informações sobre o que a firma de Grey faz – uma mistura entre telecomunicações e agricultura. Ele é rico, isso é que é importante.

Há uma espécie de interesse mútuo assim que se conhecem e rapidamente estão a namorar, apesar dele claramente dizer que namorar não é algo para ele. Christian diz a Anastasia que esta deve submeter-se a sessões regulares no seu “quarto vermelho”, para ser amarrada e chicoteada, submissa para a sua dominância. Mordendo o seu lábio, Anastasia concorda, após uma longa discussão que envolve um contracto que diz o que ela tem de fazer, o que é permitido e o que não é: fisting anal está fora da mesa, bem como pinças genitais. Mas cordas já pode ser. Passear no seu helicóptero privado também pode ser.

Vamos ao que interessa: as cenas de sexo. Não são assim tão diferentes de outros filmes para maiores de 16 anos. Já sabemos o que vai aparecer em tela: umas costas arqueadas aqui, um pescoço ali, uma canção em slow motion da Beyoncé, umas nádegas, um mamilo, um vislumbre de pêlos púbicos, uns gemidos, mais uma canção da Beyoncé. E não passamos disto.

O filme tem uns salpicos de comédia romântica e de melodrama, mas algo que não consegue ser é pornografia/erótico. Não são cenas particularmente sexy nem picantes, são muito vanilla. Há equipamentos no seu red room, que efectivamente são usados em BDSM (Bondage&Disciplina/Dominância&Submissão/Sadismo&Masoquismo) mas não há nada a acontecer a não ser Christian a amarrar Anastasia, a dar-lhe umas chicotadas e depois montes de sexo banal. As “brincadeiras” que ele faz com ela não são hardcore, nem representam, de todo, o lado autêntico deste mundo.

As cenas de sexo são demasiado “perfeitas”, não há suor nem maquilhagem borrada e há sempre o sentimento de que todos os momentos pseudo-eróticos foram coreografados por um comité que não percebe nada do assunto ou que teve um AVC e perdeu os sentidos. Ninguém, em toda a equipa, foi capaz de dizer “Epá, espera lá que isto se calhar é um bocado parvo”.

Não houve pesquisa sobre a temática? É suposto as relações de BDSM serem consensuais, baseadas na confiança, comunicação e amor. Tem de haver mais ligação entre parceiros e mais diálogo, em qualquer tipo de relação. 50 Shades of Grey acaba por ser uma relação abusiva, mascarada de romance semi-erótico. É escrito e realizado por alguém que não entende de BDSM, para uma audiência que não entende BDSM. Sim, porque o público-alvo é maioritariamente constituído por mulheres frustradas com a sua vida sexual que dizem que os videojogos fazem os seus filhos violentos, mas ver um filme sobre uma relação tóxica, já não há problema nenhum.

Eu sei que isto é um filme, é suposto ser ficção, mas todos os aspectos cinematográficos têm pouco ou nenhum valor. Apesar da cinematografia ser quase aceitável, não há nenhum ponto positivo nesta longa-metragem. Não há desenvolvimento de personagens, nem substância, nem história. O argumento é praticamente inexistente. Eles passeiam, ele dá-lhe umas palmadas, ela chateia-se porque diz que ele precisa de ajuda (sim porque as fantasias sexuais são vistas como uma doença), fazem as pazes porque ele lhe compra um vestido bonito e leva-a a jantar num restaurante chique. Não há mais nada, acreditem.

As performances parecem retiradas de uma novela da TVI, os atores estão ali para receber o seu cheque e o resto não interessa. Pior que isso é o facto das personagens principais serem completamente irrealistas. Não acho que uma pessoa como Christian estaria interessado numa pessoa como Anastasia: ela claramente não tem os mesmos interesses dele (ela chora cada vez que ele lhe bate) e seria mais fácil arranjar alguém que consensualmente o quisesse fazer. Quando Anastasia diz “deixa-me em paz”, ele invade o seu apartamento. Isso não é consensual nem saudável.

Anastasia Steele não faz sentido, é uma personagem feminina fraca e sem personalidade que necessita de um homem constantemente a ditar a sua vida. O seu comportamento não tem lógica, padrão, nem coerência de causas ou limites. Anastasia começa a história como virgem. Não há nenhum mal nisso, o filme é que não se foca na exploração da sua sexualidade. Christian apenas diz “vem comigo para este quarto”, e ela entra numa espécie de masmorra. A maioria das pessoas teria fugido a sete pés, pensando que iria ser assassinada. Se a história fosse acerca da descoberta da sua sexualidade ou até mesmo ela a descobrir o BDSM e depois sim conhecer Grey, poderia resultar, mas ela apaixona-se, e só depois descobre que o homem é basicamente um sádico, entrando nesse mundo. Já não há bons papéis para as mulheres na indústria cinematográfica?

Isto torna o filme muito perigoso. Psicologicamente alguns homens podem ver isto e dizer “é exactamente isto que preciso de fazer para conquistar uma mulher”. E algumas mulheres podem pensar “se ele me faz este tipo de coisas é porque realmente gosta de mim”. Este filme é um manual de instruções para um psicopata. Christian é manipulativo e controlador e Anastasia compra a ideia de que está apaixonada por ele, que ele pode ser um homem amoroso, portanto ela faz tudo aquilo que ele quer. Ela está a ser domesticada, não submissa. Submissa é uma pessoa que QUER ser submissa, não é algo que se possa forçar a alguém oferecendo presentes caros.

Christian Grey aparece muita vezes em cena sem aviso, quase como num filme de terror, a câmara vira e lá está ele, é assustador. Até Anastasia salta cada vez que ele aparece repentinamente: no seu trabalho, no seu quarto e no restaurante com a sua mãe. Ele não é um dominador nem um sádico, ele é um perseguidor obsessivo com graves problemas emocionais. Tem comportamentos de um psicopata, não de um homem apaixonado.

I don’t make love. I fuck. Hard.

Se isto fosse uma comédia romântica de domingo à tarde, nós estaríamos contra esta relação. Iríamos rezar para que aparecesse um homem melhor, neste caso, que gostasse de Anastasia como ela é. Estaríamos a torcer para que o amor da sua vida aparecesse a qualquer momento e a salvasse do perigo. Christian seria claramente o antagonista desta história.

Porque é que eu vi o filme? Primeiro que tudo, para poder falar sobre ele com conhecimento de causa. Depois, porque sabia que ia passar um bom momento a analisar um péssimo filme. Eu sabia a priori que o filme era horrível, mas acabou por ser ainda pior do que estava à espera. É ridículo, na verdade. A sorte foi que vi 50 Shades of Grey como uma comédia, o que ajudou bastante para conseguir suportar o que os meus olhos estavam a ver. Nunca na vida iria comprar o DVD deste filme, muito menos pagar para ir vê-lo ao cinema, mas não posso negar que me fartei de rir e que me diverti.

50 Shades of Grey é uma má representação de BDSM, por isso deixo aqui algumas sugestões de obras com temática semelhante, que pelo menos são mais sexy, interessantes e realistas: Secretary (2002), 9 ½ Weeks (1986), Maîtresse (1976), La Vénus à la Fourrure (2013) e, até, Nymphomaniac (2013).

Se alguém é punido em 50 Shades of Grey não é Anastasia, é a audiência. Diálogos terríveis, zero química entre os protagonistas e argumento fraquíssimo. Mal posso esperar por analisar 50 Shades Darker, o segundo desta trilogia maravilhosa.


Sara Ló
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